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Opiniões

O alívio que é assistir Mulher Maravilha

17 de agosto de 2017, POR

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Finalmente após anos da Grande Era dos super-heróis no cinema, repleta de homens como protagonistas, a espera acabou e Mulher Maravilha chegou. O longa, que estreou no dia 1º de junho de 2017, apresenta a origem de Diana Prince – interpretada por Gal Gadot. A história narra parte da sua infância e juventude em Themyscira, Ilha do Paraíso, e traz consigo, como trama principal, o descobrimento da Primeira Grande Guerra através do encontro com Steve Trevor – interpretado por Chris Pine. É o momento em que Diana inicia a sua jornada rumo a defesa da justiça e a crença sobre a bondade na humanidade.

Pouco tempo depois da estréia, cerca de 75 dias, cá estamos. Mulher Maravilha já foi capaz de conquistar mundialmente, aproximadamente, 800 milhões de dólares. Sendo que deste valor arrecadado, aproximadamente, 51% fica a cargo dos Estados Unidos e o restante espalhados ao redor do mundo. E, como se não bastasse, o longa entra para história ao ser o primeiro filme dirigido e protagonizado por uma mulher a conquistar a esse valor em bilheterias. Pois bem, como disse Manoel de Souza, editor da Revista Mundo dos Super-Heróis:

“Filme bom é o que mira no coração, mexe sem dó com os sentimentos e respeita a inteligência dos fãs.”

Ele não podia estar mais correto e, de acordo com os nossos parâmetros, Mulher Maravilha foi um filme excelente. Neste ponto, imagino que você que esteja lendo esta postagem e já tenha visto o longa que foi aclamado tanto pela crítica quanto pelo público – tornando-se, assim, um grande sucesso em meio a tantos fracassos e lançamentos questionáveis deste ano. Sem mais delongas, vamos ao que interessa. Vamos falar sobre a maravilhosidade, a importância e este grande alívio que foi e é Mulher Maravilha não apenas para a industria do cinema, mas como também para todas as mulheres.

Tudo começou com a Série de TV

Desde meados dos anos 70, em seu primeiro seriado, a história da Mulher Maravilha já mostrava o grande potencial e responsabilidade que o recém lançado filme tem para com a mídia no todo. Quem acompanhou a série dos anos 70 – imagino que poucos de vocês – sabe do que estou falando. Mas aos que não acompanharam, não se preocupem, vou explicar. Na série de 70, a responsável por interpretar a grande heroína era Lynda Carter. Sendo que, através da maioria de suas declarações, podemos observar a importância que a super-heroína sempre carregou consigo.

“Não havia diversidade de papéis para mulheres naquela época. Ou você era gatinha do mês em alguma figuração ou era mãe de alguém, e tudo dependia de sua idade e aparência”. Lynda Carter, em sua declaração no livro A História Secreta das Heroínas Americanas.

Na época a série foi um grande sucesso, conquistando espaço até uma terceira temporada. Entretanto, nem tudo eram flores. Em sua primeira temporada, foi recusada pela emissora de TV original BBC, mas logo aceita de braços abertos por sua concorrente CBS. A partir dessa segunda temporada, Diana Prince não dispunha sequer de um par romântico, somente de suas aventuras e sua trama. Ainda em sua segunda temporada, inclusive, uma mulher foi contratada como roteirista da série. Pode soar como um detalhe desnecessário, mas é importante lembrar que esses eventos se passaram nos anos 70. A situação das mulheres na mídia da época pode ser bem expressada por esta frase, também, da Lynda Carter:

“Eram todos uns caubóis que achavam que uma mulher não seria capaz de segurar um papel de uma hora na TV.”

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

Série de TV do anos 70

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Nos anos 70, se você era mulher, sentia dificuldade de estar representada. Uma estranha em meio a sociedade. A série, embora ainda presa diante alguns preceitos da época, estabelecia uma conexão que só pode acontecer de mulher para mulher.

Muitas das vezes quem impediu que Diana se tornasse um personagem caricato, com comédia exacerbada, foi a própria Lynda em discussões com a equipe. Dessa forma, entravam apenas as piadas em que ela estava de acordo. Em homenagem ao sucesso da série, ao clássico que ela se tornou e a imortalidade de Lynda como a personagem, ela chegou a ser convidada para fazer o papel de Rainha Hipólita no novo longa, mas por conta da não compatibilidade de horários Lynda não pôde participar. No fim, a responsável pelo papel foi Connie Nielsen – que fez um excelente trabalho no papel.

Mulher Maravilha, dos anos 70, tem vários méritos e foi decisiva para a indústria televisiva. O resultado foi que a série de TV abriu novas possibilidades para participações um pouco mais ativa das mulheres e trouxe consigo um ícone de inspiração para todas as jovens da época – como foi dito anteriormente pela própria Lynda Carter, as mulheres não tinham a quem se inspirar. Acompanhe abaixo a abertura da série e relembre esse clássico:

A representatividade faz a diferença

Agora, se você é um homem e chegou até este ponto sem a dimensão desses pequenos detalhes que foram comentados, ou principalmente, a importância da representatividade feminina… continue mais um pouco. Chegamos na parte decisiva. E se você é uma mulher, bem, imagino que ao chegar neste ponto já tenha se identificado com as palavras de Lynda Carter. 3 fuc**ng décadas depois e elas continuam valendo até hoje. Identificação. Foi exatamente assim que eu, muitas mulheres, garotas e meninas se sentiram enquanto assistiam ao longa da Mulher Maravilha no dia 1º de junho – um dia que entra para a história de representatividade pop para cada uma nós.

Pela primeira vez, durante muitos anos, fui capaz de me sentir REPRESENTADA, inspirada, aliviada, empolgada e, para nossa “tristeza”, SURPRESA ao poder ver na tela uma mulher REAL. Uma mulher que soou como um personagem natural e orgânico, que protagoniza a sua própria história, com conflitos, com certezas, com moral e com poder. E disse aqui “tristeza”, porque é terrível pensar que passamos até hoje, em 2017, a mesma falta de representatividade, principalmente em filmes de ação e blockbusters, que nos anos 1970.

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Mulher Maravilha

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Mulher Maravilha entrando em campo, pronta para batalha, em uma das melhores sequências do filme.

Como mulher, é grande o alívio ver uma mulher se impondo aos seus próprios valores, seus próprios desejos e sua própria ética, sem ser parada por ordens ou desejos de um homem. E é aí que começamos a agradecer aos Deuses por Patty Jenkins – diretora do longa. Foi por conta do seu olhar feminino e de compreensão para toda essa angústia que sentimos, durante a nossa vida e durante a nossa representação na mídia, que enquanto assistia a cena acima, na qual Diana, como Mulher Maravilha, ignora as ordens de Steve Trevor – até porque, quem deu a ele o direito de dar ordens a ela? – e ele diz exatamente “não é algo que você possa passar, não é possível (…) Não é isso que viemos fazer” e, então, ela responde “não, mas é o que eu vou fazer”, entrando em campo aberto SOZINHA. É uma sequência maravilhosa, enfrentando balas e bombas, mostrando que ela pode, que tem esse poder e que foi para isso que estava naquele local de guerra.

Nesse momento eu sabia que esta cena acabava de se consagrar como um clássico. Enquanto ela acontecia foi o ponto máximo e definitivo do filme, de Patty Jenkins, onde percebi “este filme vai ser o que todos precisamos”. Outro exemplo, anterior a esta parte do filme, é a cena extremamente rápida na qual vemos a reação de Diana quando um dos superiores do Steve diz a ele: “Steve o que você está pensando trazendo uma mulher aqui?”. A reação é algo a ser aplaudido. Um simples detalhe, mas que foi colocado de forma proposital afim de mostrar que Diana não aceita tais imposições. Algo que, tristemente, é praticamente extinto nos cinemas quando mulheres são retratadas. Também há outra cena. Quando ela começa a discutir com um dos generais de Steve e ele diz “me desculpe, me desculpe, ela está comigo”… como se isso colocasse sobre ela algum tipo de proteção ou lhe desse algum tipo de desculpa, momento em que ela diz “eu não estou com você!”. Novamente, são pequenos detalhes que fazem a diferença.

Mas Mulher Maravilha não foi a primeira tentativa. Nos cinemas, já houveram sim inúmeras situações em que as mulheres foram protagonistas. Algumas boas e outras nem tanto. Mas aqui falamos sobre o universo majoritariamente masculino: o universo nerd dos super-heróis. E é importante não esquecer de filmes mais recentes de super-heróis nos quais também tivemos mulheres como protagonista, são eles: Elektra interpretada por Jennifer Garner em 2005 – e Mulher Gato interpretada por Halle Berry em 2004. Sendo que já havíamos visto Elektra em Demolidor: O Homem Sem Medo interpretado por Ben Affleck em 2003. Todos estes filmes possuem no mínimo divergências de opiniões para não dizer que são detestados.

Mulher Gato é um exemplo claro do que NÃO fazer com uma personagem feminina, PRINCIPALMENTE como protagonista. Era claro para nós mulheres, mesmo pequenas, que tinha algo errado. As mulheres não eram daquela forma, portanto não era uma representação de como somos. Hoje entendo que o errado estava na sexualização caricata da mulher. Com a Elektra, as coisas foram um pouco diferentes. A primeira vez que eu e CK, vulgo O Super Nerd, conversamos sobre o longa do Demolidor e da Elektra, disse que adorava e a reação dele foi: “COMO ASSIM?!”. E, realmente, não são bons filmes, mas apenas a sensação de ver a Elektra lutando de igual para igual, se não melhor, com o Demolidor era algo revigorante, empolgante e diferente.

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Elektra, filme de 2005

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Elektra em uma de suas poses de luta clássicas no longa de 2005. E isso, caro leitores, transcende a qualidade do longa e se conecta com nossa representatividade.

No seu filme solo, a relação em foco ocorria entre a Elektra e a garota que viria a ser sua aprendiz. Que quebrava o paradigma de coisas que estamos cansados e saturados de ver em filmes: o mestre homem e seu aprendiz homem. Portanto, ver esta relação de confidencialidade e confiança entre estas duas mulheres em cena, ambas poderosas porém reais torna, definitivamente, o melhor filme de ação e de heróis que eu vi até o longa da Mulher Maravilha deste ano, não pela qualidade, não pelo roteiro, mas sim por sua representatividade capaz de me fazer se sentir fora do clássico mundo dos homens, onde as mulheres não tem seu espaço como personagens fortes.

Porque filme bom é aquele que toca no coração, como citado no começo do artigo. Esses pontos foram os que me tocaram de verdade. A trilogia Nolan, Homem de Aço e Batman vs Superman na DC tal como todos os milhares de filmes da Marvel são, na sua maioria, gostosos de assistir e emocionantes, principalmente, ao ver personagens clássicos ganharem vida, mas não trazem a emoção intensa que é a capacidade de se ver representada em tela como Mulher Maravilha faz tão bem. O longa conseguiu corrigir os erros que Elektra e Mulher Gato cometeram. Trouxe o toque de uma mulher na direção que fez do filme, como um todo, uma excelente obra agradando a todos os tipos de público e, assim, já garantindo sua continuação e solidificação da personagem em filmes onde irá dividir tela com outros heróis – algo antes inimaginável, uma protagonista feminina forte em meio a protagonistas homens dentro de um filme de super-heróis.

E caso você esteja questionando minhas escolhas… sim, eu aguentava mais de 2 horas de um filme como Demolidor só para ver as pequenas participações da Elektra. Porque a representatividade importa e talvez seja algo que somente as mulheres consigam entender. Após esses filmes lembro-me bem de passar meses procurando quando iria passar na TV novamente e, como uma grande diversão, “fazendo” os mesmos treinamentos que a Elektra faz no filme. Havia em quem se inspirar. Prestem atenção na dimensão que um filme desses pode tomar. Para os homens é bem mais natural essa brincadeira, são tantas as possibilidades do que podem ser…

Meu grande intuito com tudo isso é ressaltar o quão importante é ter mais “mulheres maravilhas” sendo representadas em Hollywood, em uma grande mídia. Pois se eu, com 19 anos, me senti como já descrito antes, imaginem crianças que vão poder crescer com esta referência e com esta mensagem de que:

Elas podem SIM ser quem elas quiserem. Elas podem SIM fazer o que elas quiserem. Mesmo que seu pai te diga que não. Mesmo que seu amiguinho de classe saia impune de coisas que você sabe que são erradas. Mesmo que um homem na rua te desmereça. Mesmo que seu chefe te olhe de maneira vulgar e te subestime por ser uma mulher. Mesmo que toda uma sociedade te imponha regras imaginárias de comportamento, carreira, entre outros. Você pode. Você pode ser como a Mulher Maravilha. Você pode ser forte, musculosa, lutar, desobedecer ordens que, para você, não fazem sentido. Você pode usar a roupa que te faça sentir mais confortável e ter um parte romântico que não apenas te aceite, mas que te ame por isso. Todas coisas que vocês homens sabem, até inconscientemente, por conta do costume de ver tudo isto desde sempre.

É bom ressaltar que Mulher Maravilha não foi um filme perfeito, como por exemplo: por que Diana não achou estranho, nem ao menos questionou, o fato de somente interagir com homens da metade para frente do filme? A premissa base dos quadrinhos, a luta pelas mulheres e pelas crianças, fica bem nebulosa no longa. Mas este post não é sobre isso, ele é para agradecer principalmente a Patty Jenkins por ter dado o pontapé inicial que estávamos aguardando ansiosamente, então sejamos positivos!

Propositalmente ou não, este longa não foi só sobre o aparecimento de uma personagem clássica dos quadrinhos, foi sobre muito mais. A representatividade natural está lá e ela pode ser sentida por todas nós mulheres. No QG do O Super Nerd estamos ansiosos e torcendo para ver mais destes exemplos nas próximas grandes estreias que virão como: Capitã Marvel, Sereias de Gotham, Batgirl e que venham mais! Não deixe de colocar nos comentários qual foi a sua sensação, como você se sentiu ao assistir o longa e o quão importante ele foi para você como mulher e também como homem.

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Tali Beatriz

Tali Beatriz

Apaixonada por todas as formas de arte e entretenimento, amante da mente humana e sua capacidade criativa e cosplay da Mulher Maravilha.

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